SAMSA APAIXONADO

Como poderíamos imaginar a sensação de um inseto que pudesse se transformar em um homem? Como ficaria o sentimento de justiça e dignidade nessa condição de humano? Dignidade é um sentimento que nos leva ao interesse pelas questões do sofrimento de outrem, bem como a justiça – o que torna o homem protegido na relação com o outro. Encontramos tais reflexões no conto “Samsa Apaixonado” no livro Homens sem Mulheres, de Haruki Murakami.

Nesse conto, o personagem de Franz Kafka, o Samsa do livro Metamorfose, segue um processo inverso. Assim Murakami descreve: “Quando certa manhã acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado de Gregor Samsa”. De alguma maneira o inseto entendeu que se transformara em uma pessoa e que se chamava Gregor Samsa.

Samsa, ao despertar em um ambiente de uma casa, aparentemente abandonado, logo tomou consciência dos temas: invadir, prisão e proteção. Começou a pensar quem era ele antes de ser Gregor. Veio à sua mente uma espécie de sonho que fez surgir em sua cabeça uma nuvem de mosquitos. Sua prioridade é preencher o vazio que sentia no corpo e teve que se habituar aos dilemas da vida humana em meio à guerra.

Ao observar os homens e se olhar no espelho, deu-se conta de que estava nu. Vestiu um roupão. Chamaram à porta. Ao abri-la, viu uma jovem mulher com o corpo deformado – por ser corcunda -, que para ele parecia um inseto. Samsa se apaixona e não sabe por que seus genitais formam uma protuberância se destacando no seu corpo vestido. A jovem viera consertar uma fechadura. Foi enviada pelos pais pela suposta facilidade que teria em passar pelas guerras lá fora.

A jovem já experimentara o abuso do outro e entendeu que aquele órgão, se expressando por trás do roupão, seria mais uma tentativa de humilhação e abuso. Ela reclama disso, e Samsa – em sua humanidade -, tenta lhe explicar o que só ele sente. Seu coração acelera.  Vivia algo muito bom que os homens chamam de amor. A tensão entre a lentidão do tempo em que se está apaixonado e a aceleração deste mesmo tempo quando se quer amar deixou Samsa confuso e atraído por alguém que não sabe se voltará a ver.

Sonhar é o modo que temos para entrar em contato com a natureza que se expressa de forma mitológica para resgatar os seus segredos. Quem consegue prestar atenção a eles terá o benefício de se conhecer de verdade. Não se pode observar os sonhos com a lógica da consciência, mas com a linguagem metafórica do inconsciente. Poderíamos por meio do sonho descobrir algo sobre a origem de Samsa. Ele sonhou, ou veio à sua cabeça, uma nuvem de insetos? Poderíamos aqui refletir sobre aspectos desvalorizados pelos humanos, ou trazer a ideia do incômodo ou doença que nos faz tê-los como indesejáveis, ou ainda, pensarmos nas bases instintivas da psique, o que nos faz executar atos sem usar a sabedoria da reflexão.

Durante o desenvolvimento da criança, ou da humanidade, a consciência, à medida que evoluía, também o afastava de sua própria natureza ao negligenciar a sua origem mítica. No mito do paraíso, Adão e Eva experimentam o fruto do conhecimento e se dão conta que estão nus e que existem diferenças entre eles. Dessa forma, para entendermos a natureza do homem recorremos aos mitos construídos pela humanidade em seus primórdios, época em que a consciência ainda não o tinha afastado tanto de sua própria natureza.

Para entendermos as várias guerras lá fora, podemos pensar nos quatro cavaleiros do Apocalipse. O primeiro, a guerra, já contém em si os outros três: a dominação, a peste e a fome. A jovem corcunda, em sua guerra com seu corpo, trouxe a vergonha e humilhação como uma barreira que a impedia de ser amada. Talvez ela represente o “estupro social” das convulsões sociais que é a invasão do mais forte sobre o mais fraco, ou seja, a violência e o desrespeito à integridade do outro.

Na linguagem de um dos muitos mitos da criação, Epimeteu, na criação do homem, deu-se conta de que distribuíra todas as faculdades disponíveis para os animais irracionais e nada sobrou para dar ao homem que nascia nu e desprotegido. Prometeu, irmão de Epimeteu, conseguiu roubar dos deuses o fogo e a sabedoria para dar ao homem a capacidade de criar seus próprios meios necessários à vida. Com esses recursos, os homens começaram a interferir na natureza e ter dificuldade de se relacionar com seus pares. Os homens começaram a se destruir. Zeus, o deus maior do Olimpo, resolveu intervir.

Zeus, compadecido, deu-lhes um de seus dons: a arte da política, constituída de dois atributos: justiça e dignidade. Na dignidade pessoal já está o sentimento de vergonha ou pudor. Para Zeus todos os homens deveriam desenvolver a Arte da Política, pois assim darão importância aos seus atos que serão julgados e qualificados pelos outros. Do contrário não haveria harmonia social e a espécie humana desapareceria.

A guerra é portanto um resultado da incompetência política, quando a arte de governar não consegue o respeito aos valores instituídos e estabelecidos ao longo da vida dos povos de uma nação. Quando falta a Arte da Política, ficamos sem a justiça e sem a dignidade pessoal. O homem então ficará indiferente às questões do outro e se tornará manipulador da realidade, usando o bem coletivo em proveito próprio. Esses são os desafios de um inseto que evoluiu para um ser racional.

Fonte: IJBA